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Vida q. b.

A vida. Nem sempre escorreita mas também nem sempre difícil e onde sempre existe motivo para sorrir, mesmo que para disfarçar as lágrimas.

Vida q. b.

A vida. Nem sempre escorreita mas também nem sempre difícil e onde sempre existe motivo para sorrir, mesmo que para disfarçar as lágrimas.

18/12/17

Almas para sempre feridas para lá do limiar da Memória Colectiva

Tenho 46 anos e sou do concelho de Mação. 

 

A introdução é necessária para que os leitores entendam.

 

O concelho de Mação viu 80% da sua àrea transformada em cinzas, carvão e nada. Esta é a parte física.

 

O concelho de Mação foi "atacado" por um "inimigo" de potência mortal por duas vezes este Verão.

 

Em Julho, perante a inoperancia de quem dirigia o teatro de operações que, tendo informação do IPMA que o vento ia mudar naquele dia àquela hora, não agiu em conformidade, as forças de combate ficaram "à espera" do fogo onde o vento não o levaria, o fogo entrou concelho abaixo, consumindo matos, pinhais, casas.

 

 

Não consumiu pessoas porque, neste concelho, somos resilientes (palavra agora muito em voga). Já o somos à muito, não o somos de agora, já o somos de à muito... mas não na alma.

 

Comida aos Bombeiros? Demos nós. Nós todos, população, Instituições de Solidariedade Social, Empresas, coordenadas pela Autarquia. Demos todos. Não passaram fome, estou certa. No dia que estive na cozinha (num dos atos voluntários que fiz nessa altura) foi carne de porco à portuguesa para o jantar. Água não faltou com os supermercados da zona a esgotar os seus stocks com a organização de operações de voluntárias de recolha e donativos dos próprios supermercados e lojas.

 

O fogo impressionava. Nos anos que já vou acumulando, nunca tinha visto tal extensão de fogo. Perderam-se animais, muitos animais, e perderam-se vidas de pessoas que respiram mas mais nada lhes resta. Perderam tudo para muitos o Lar é o seu futuro até ao dia que perderem também o respirar.

 

O fogo atravessou de alto a baixo pelo lado direito do concelho. Tudo consumindo em direção a Gavião, Nisa... lá o conseguiram parar e suspirámos de alivio.

 

Curto momento de ilusória paz entre ondas de fogo.

 

Veio Agosto e o fogo voltou. Mais determinado. De muitos lados e não apenas de um.

 

Veio violento e caprichoso. Vinha, queimava, ia, queimava, voltava, e tornava a queimar, numa valsa demoníaca que faria inveja ou próprio Inferno.

 

 

E a violência era inaudita, a velocidade a que progredia, em projeção, com ventos baixos a empurrar o fogo para a direita e os altos a levar as "velhas" para a esquerda. Não se previa apenas se vigiava e acudia sempre que alguma "velha" encontrava combustível.

 

Eram manhãs de calmia, tardes de regresso de inferno e noites de inferno total.

 

Foi assim dias e noites a fio.

 

O fogo vinha do Norte e vinha do Oeste. Dois fogos, um mesmo alvo, o Tejo. Mas o Tejo, uma pena mais morta que viva, não o conseguiu estancar. Avançou direito a Gavião.

 

 

Nesta margem tudo ardia. Oliveiras Centenárias e Milenárias viram a sua longa história chegar a um abrupto términus. As casas da aldeia cercadas de lume, o lume a correr à beira dos caminhos, dentro dos quintais e jardins.

 

Sobrevivemos. Sobrevivemos de corpo mas não de alma.

 

Passados meses ainda sofro. Ouço falar dos incêndios de Pedrogão (que vento aquele. Também o senti era um vento estranho, violento, de que não há memória) e dos de Outubro; incêndios em Julho e Agosto parece que não existiram.

 

Ouço falar em Relatórios e Erros e descoordenação em Pedrogão e em Outubro; mas e em Julho quando a informação do IPMA sobre a mudança de vento não parece ter sido lida sequer e com isso se perdeu meio concelho de Mação, parte de Nisa incluindo as Portas de Rodão, parte de Gavião? E em Julho quando o concelho de Mação distrito de Santarém, num momento crítico, viu meios serem desviados para a Sertã e Proença-a-Nova, distrito de Castelo de Branco? Será coincidência que o CONAC à altura era de Castelo Branco? Ainda em Julho será coincidência que o incêndio em Mação não foi autonomizado e criado um Comando gerido por quem, do distrito de Santarém, conhece o terreno e poderia gerir, mais perto da ocorrência, os meios?

 

E em Julho e Agosto que andámos a pagar aos aviões para voar de Mação a Castelo de Bode encher quando podiam encher ali ao lado no Tejo junto a Belver? Será que são pagos à hora? Se são foi um bom encaixe financeiro para andar a "passear". Bem sei, bem sei, que é a coordenação que diz aos pilotos dos aviões onde ir carregar, mas serei só eu a achar estranho que ainda ninguém procurou o porquê?

 

E em Agosto quando vi carros de particulares a cortar estradas a arder que as autoridades, já conhecedoras da situação, substituiram apenas horas depois? Se alguém teimar em passar que pode um particular fazer?

 

De resto não me perguntem mais sobre o Agosto. O fogo atacou o lado esquerdo do concelho em força, o "meu" lado.

 

Não dormi durante noites a fio, lutava toda a noite contra o Diabo que não dava tréguas e que teimava em voltar, trabalhava durante o dia em ansiedade, preocupada, desesperada por o dia de trabalho acabar e poder voltar ao combate. Não tive tempo para ver a descoordenação, não tive tempo para o Mundo além do Fogo.

 

Perdemos muito. Não mais voltará a ser como era. Nunca voltou.

A minha alma está ferida. Nunca mais voltarei a ser como era. Sou cristal rachado em risco de quebrar.

E sinto o abandono. Sinto-o mas já nem doi. Não consigo sentir mais dor.

 

Pedrogão será para sempre lembrado, dão espetáculos solidários, o Governo dá dinheiro, receberam dinheiro em contas; há quem se queixe que o dinheiro ainda não veio, escapa-lhes que o que virá são coisas não dinheiro vivo (com excepção para o que já não pode ser reposto, as pessoas).

Os incêndios de Outubro serão para sempre lembrados, haverá dinheiro.

Mas mais que tudo para ambos haverá um registo na memória coletiva.

 

Para os nossos incêndios de Julho e de Agosto haverá apenas a nossa memória.

A memória, apenas nossa, de um coração verde que vimos perdendo desde os anos 80 a um ritmo cadenciado de anos.

 

Haverá apenas a própria memória para as populações "resilientes", que "se sabem defender", "que não ficam sentados à espera que o Estado venha salvá-los" (parafraseando um governante qualquer que não lembro nem me interessa lembrar).

 

A nós o Estado esquece, não perde tempo, nem dinheiro, somos resilentes, sobreviveremos agora como o fizemos antes.

 

E sim somos resilentes, e sim agimos e defendemo-nos, e sim sabemos como fazê-lo (saber de experiência feito) e sim sobreviveremos, mas não somos os mesmos, nunca mais seremos os mesmos.

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