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Vida q. b.

A vida. Nem sempre escorreita mas também nem sempre difícil e onde sempre existe motivo para sorrir, mesmo que para disfarçar as lágrimas.

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20/02/18

O Rio, Nós e o Tempo

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 Crédito da Foto: Dr. João Matos Filipe

 

Caminhava à beira rio, o rio que a prendia, que a havia visto crescer, o rio que reconhecia mesmo visto do céu.

 

Ainda recordava o regresso da primeira viagem ao estrangeiro de avião, um dia claro solarengo, a excitação de se sentir no ar, de ver tudo o que conhecia pequenino lá em baixo. Ia no lugar do meio mas juntava-se à F., sua amiga de sempre, para olhar pela janela sempre que havia algo que despertava a atenção. Desta feita foi o Comandante a alertar todos:

 

“Estamos a passar o Rio Mondego.”

 

Ambas tinham acorrido de imediato à janela, não identificando mais nada além de campos verdejantes, esticaram-se tentando descortinar algo na janela oposta mas era impossível. Retornaram à “sua” janela esforçando-se por descortinar o Rio. O fio de azul profundo a cortar o verde surgiu mas de imediato a verdade a havia atingido:

 

“Aquele é o Tejo."

 

F. retorquiu que o Comandante tinha dito que era o Mondego, mas ela sabia que era o Tejo. Não sabia como, mas aquele era o “seu” Rio, o Tejo.

 

As dúvidas de F. ficaram esclarecidas quando o avião curvou para seguir Tejo abaixo, e depois o sobrevoou, dando a curva para se alinhar com a pista.

 

Era uma visão do Tejo nunca tinha tido, a visão de pássaro, que, quem fica na margem, quem navega nos barcos, nunca tem. E é uma visão tão bela.

 

Bela como um sonho, bela mas também irreal, sem problemas, sem defeitos, perfeita na sua distância feita de altitude, apenas um rio de ouro e prata a brilhar ao Sol, agora, olhando da margem via os problemas, os defeitos, como cicatrizes.

 

Como as cicatrizes na sua pele todas tinham a sua história, algumas felizes outras (quase todas) menos felizes, as marcas do tempo que passa por nós mas também passa pelo Rio.

 

Antes de ela nascer já o Rio existia, muito do que para ela era hoje uma característica bela era de facto uma cicatriz.

A curva do Rio e a lezíria, marca indelével na sua paisagem, orquestrada pelos Romanos, há muito tempo atrás.

A Barragem, ferida ainda aberta que se foi transformando em marca na paisagem, causadora de pobreza quando bloqueou o aluvião e fez desaparecer os campos mais produtivos da sua margem direita a jusante ou quando encheu e inundou as Termas e campos de cultivo de igual forma.

Estas feridas, estas cicatrizes já existiam antes dela nascer e já lhe fariam falta se desaparecessem da "sua" paisagem.

 

A luta hoje é para sarar as feridas de hoje e não contra as já cicatrizadas feridas de ontem. Mas neste dia soalheiro em que caminha pela margem de um rio de caudal regular e azul límpido ao som da água corrente e do cantar dos melros enquanto uma águia pesqueira a sobrevoa lá do alto apenas sente a paz e a Primavera que se aproxima olvidando o Tempo que corre e tudo muda.

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